quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O que fazer para fomentar o desenvolvimento?

Gostei muito da séries de posts do Mansueto Almeida
Vejam abaixo:
Quem acompanha a literatura econômica pode ter certeza de uma coisa. Apesar do progresso na área de desenvolvimento econômico nas últimas três décadas e do maior conhecimento que hoje se tem sobre o que funciona e o que não funciona, os grandes economistas que estudam o assunto não conseguem ainda concordar no que fazer. Assim, como esperar que governos consigam avançar no fomento ao desenvolvimento se nem mesmo os melhores acadêmicos conseguem chegar a um consenso mínimo do que deve ser feito? Vamos ver como algumas das estrelas da ciência econômica e formadores de opinião na área de desenvolvimento econômico responderiam a pergunta acima. 1) Jeffrey Sachs (Columbia University) Os países são pobres porque estão mergulhados em uma armadilha da pobreza – investem pouco em educação porque o retorno do capital humano é baixo. E o retorno do capital humano é baixo porque falta oportunidade de emprego. Tudo isso leva a um circulo vicioso (baixo retorno do capital e baixos incentivos à educação e inovação) que poderia ser quebrado com a ajuda externa de organismos internacionais e países desenvolvidos. O problema de combater a pobreza e do estímulo ao crescimento seria resolvido com um “Big Push” – depois pensamos em incentivos. Instituições seriam secundárias e poderiam ser criadas ao longo do processo de crescimento, uma vez que a “armadilha da pobreza” seja quebrada. A pobreza existe porque a comunidade internacional aplica “pouco” dinheiro para combatê-la. Programas como as metas de desenvolvimento do milênio são bons e precisamos aumentar o compromisso com esse tipo de política. 2) William Easterly (New York University e ex-Banco Mundial) Os homens brancos vivem com um sentimento de culpa pela pobreza do mundo. Assim, eles tentam planejar como resolver os problemas dos pobres e dos países pobres, mas fazem um bocado de tolices ao tentar “planejar o desenvolvimento” e distorcem incentivos. No final, ditadores de países pobres recebem dinheiro da comunidade internacional, ficam mais ricos e a distribuição de redes para proteger crianças do mosquito transmissor da malária terminam como rede de pescar no barco de algum pescador no mar. A solução é reduzir os programas internacionais de combate à pobreza, aprimorar incentivos de mercados em cada país e avançar na abertura comercial para que cada país possa usufruir das vantagens comparativas. Crescimento é um processo complexo e não há receita única. Os burocratas mais atrapalham do que ajudam e Jeffrey Sachs é um grande utopista que deveria criticar a politica de proteção comercial e de subbsídos dos EUA ao invés de “ajudar os pobres”. O que devemos fazer para ajudar os mais pobres é incentivar abertura comercial, aprimorar os mecanimos de mercado e defender o término dos subsídio agrícolas dos EUA e da União Européia. A forma de combater pobreza é por meio do livro comércio com a inclusão de produtores de países pobres que hoje são prejudicados pelos subsídiso de países ricos. Essa é a única forma de combater a pobreza de forma sustentável: “more trade and less aid“. 3) Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Harvard) Professor Daron Acemoglu (MIT) O que determina o crescimento de um país no longo-prazo são as instituições. Os países sabem exatamente o que fazer e o que não fazer, mas adotam politicas extrativas (e não inclusivas) porque há uma elite que se beneficia do crescimento concentrado (ou mesmo da falta dele). O governo não pode fazer muita coisa porque “o governo” faz parte desse equilíbrio, que é um equilíbrio estável – instituições politicas e econômicas extrativas se reforçam mutuamente e levam a um equilíbrio dinâmico estável. Professor James Robinson Como então os países fogem da armadilha de estar preso a um equilíbrio ruim: instituições extrativas, políticos corruptos, baixo incentivo à inovação, etc.? não há receita de bolo. Há janelas de oportunidades, como recentemente ocorreu com a primavera árabe, que trazem para o cenário político novos atores que podem alterar a correlação de forças em uma sociedade, dando inicio à formação de instituições políticas e econômicas mais inclusivas. O Brasil seria um bom exemplo dessa dinâmica de criar instituicões inclusivas não por uma revolução, mas de forma mais gradual com os avanços que o país logrou desde o fim do regime militar (isso está livro deles why nations fail). Crescimento de longo-prazo é um processo demorado e boas instituições não serão criadas de fora para dentro. Por mais bem intencionado que seja Jeffrey Sachs, tudo o que ele propõe é “wishful thinking” e não entendeu nada do que escrevemos no nosso livro “why nations fail”.
4) Abhijit Banerjee (MIT) e Esther Duflo (MIT). Nossos colegas são muito radicais. Eles todos podem contribuir com a solução para reduzir a pobreza e promover o crescimento, mas é preciso qualificar as teses deles com a metodologia de Randomized Evaluations-RE que os pesquisadores do “Poverty Action Lab” utilizam. Para melhorar as INSTITUIÇÕES (as regras do jogo de uma sociedade) tão destacadas pelo Daron Acemoglu, precisamos entender melhor as “instituições” no âmbito microeconômico, por exemplo, os programas de microcrédito, transferência de renda condicionada, programas de melhoria das escolas em comunidades pobres, projetos de esclarecimento nas vilas pobres para melhorar a governança local, programas de esclarecimento à população sobre os recursos transferidos para escola local, etc. Esses vários programas no âmbito microeconômico podem ser testados em várias regiões e países pobres e, se adequadamente avaliados (via Randomized Evaluations-RE), poderiam nos ensinar o que funciona e em quais condições. Esses programas locais são em geral baratos e os estudos que fazemos mostram que muitos deles melhoram o bem estar de comunidades pobres e, esse tipo de programa, se adotado em escala maior depois de adequadamente testado como se faz na indústria farmacêutica com novas drogas, poderiam melhorar as INSTITUIÇÕES. Neste caso, a solução macro do crescimento de longo prazo viria de projetos locais no qual a comunidade internacional poderia ajudar com recursos e avaliação (Sachs poderia ajudar). Mas incentivos são importantes e o desenho desses programas micro precisam levar em conta os incentivos de mercado (Easterly poderia ajudar). Por fim, podemos melhorar as INSTITUIÇÕES no âmbito macro a partir de projetos micro (instituições com letra minúscula) (Acemoglu e Robinson concordamos com vocês, mas janelas de oportunidades podem ser criadas). 5) Joseph Stiglitz (Columbia University) e Paul Krugman (Princeton University) Professor Joseph Stiglitz O mundo é uma droga com politicas erradas de países desenvolvidos que foram capturados pela elite do sistema financeiro. Os países em desenvolvimento confiaram demais no “Consenso de Washington” e adotaram politicas que dificultam o crescimento de longo prazo. A solução para o problema do crescimento passa, necessariamente, por políticas governamentais mais ativas que promovam o crescimento, fortaleça o papel dos sindicatos dos trabalhadores, aumentem a tributação sobre os mais ricos, aumente a rede de bem estar social, aumente a regulação do sistema financeiro, adoção de politicas industriais e fomento à inovação. Professor Paul Krugman O governo tem a força e precisamos apenas trazer para o poder as pessoas certas, aquela que estão dispostas a promover o crescimento inclusivo e não cair na armadilha do pessimismo dos economistas de Chicago. No caso dos EUA, se voltarmos ao mix de politicas que tinhamos no pós-guerra, podemos voltar a crescer novamente e pagar nosso imensa dívida. O problema do baixo crescimento dos EUA, por exemplo, é um problema político que resultou da captura do governo pelas elites e baixa mobilização dos trabalhadores. A crise decorreu da falta de regulação do governo e da perda de poder do eleitor mediano, um processo que teve início na primeira metade da década de 1970. 6) Dani Rodrik (Harvard) e Ricardo Hausmann (Harvard) professor Dani Rodrik Os países precisam experimentar e descobrir suas vantagens comparativas. Vantagens comparativas podem ser criadas e o governo tem um papel importante nesse processo de estimulo à descoberta do que pode ser produzido de forma eficiente em um país. O foco não é dar incentivos para o que já existe, mas incentivos para que novos empreendedores possam investir em novos setores ou produtos, com o Estado compartilhando o custo do fracasso. Esse processo de descoberta precisa ser subsidiado porque o retorno social é muito maior que o retorno privado e, assim, se não for subsidiado a sociedade vai investir pouco nesse processo de descoberta de novas atividades. Essa estratégia que advogamos pode complementar a estratégia do Banerjee e da sua turma do Poverty Action Lab – não são estratégias excludentes e espero que eles entendam dessa forma. professor Ricardo Hausmann Instituições são importantes. mas os países melhoram, gradualmente, suas instituições ao longo do processo de crescimento e “boas instituições” dependem do estágio de desenvolvimento de cada país. A China seria um bom exemplo desse processo de descoberta e melhoria institucional patrocinado pelo governo.O importante quando se fala de políticas de fomento ao crescimento e a setores produtivos é ter monitoramento, avaliação e regras de saída. Há espaço para “boas políticas industriais”. Mas o fato de defendermos politicas industriais não significa que sejamos a favor das loucuras que muitos países fazem e chamam de politica industrial. No caso específico do Brasil, já publiquei texto (Hausmann), em 2008, onde defendo que o Brasil já tem uma estrutura industrial diversificada e que o problema maior de vocês seria a baixa taxa de poupança doméstica.
É claro que a lista abaixo dos dois post anteriores não é exaustiva e apenas coloquei aqueles professores que mais aparecem no debate de desenvolvimento. Há um outro grupo grande de economistas que defenderia o básico: governo deve se preocupar com educação, segurança e direitos de propriedade. Para esses economistas, o que o governo pode fazer para promover o desenvolvimento é não atrapalhar o funcionamento do livre mercado, deixar o país explorar as vantagens comparativas que já tem, investir em educação e até dar incentivos para inovação. Mas nada de política industrial ou de programas voltados para “planejar o desenvolvimento”. Na visão desse grupo, desenvolvimento não pode ser planejado e quem tentou fazer isso se deu mal. Os exemplos de países que planejaram o desenvolvimento e tiveram sucesso são exceções que confirmam a regra (Easterly tem um bom texto sobre isso). O que fazer? Bom, todos os dias alguém me pergunta o que o governo deve fazer. Como é que vou saber se nem os economistas famosos concordam no que fazer e cada um fala mal do livro do outro? Para cada um dos economistas citados acima há uma legião de professores e profissionais em diversos órgãos internacionais que divulgam suas ideias e todos acham que têm a última solução para o problema do desenvolvimento. Pelo menos a turma do RE (Banerjee, Duflo e seguidores) tem uma vantagem: não sofrem do problema de megalomania apesar da tentação de alguns dos seus seguidores em generalizar experimentos que não podem ser generalizados – essa turma vai ainda suar muito para convencer que a metolodologia deles não sofre dos mesmos problemas tão criticados dos estudos de caso: vale apenas para o caso ou os casos analisados. Quer um conselho? Pergunte ao seu professor de economia favorito quem tem razão neste debate. Eu mesmo vou começar a perguntar aos meus amigos que estão na academia o que fazer para promover o crescimento. O problema é que já fiz isso uma vez e não houve consenso. Enquanto isso dois economistas velhinhos devem estar pensando…… Professor Albert O. Hirschman “Solow, muita gente me criticou por que não formalizei minhas ideias sobre desenvolvimento econômico e que sempre fui muito otimista com a América Latina. Mas depois de quase meio século de avanço na teoria, até que ponto esses jovens de fato avançaram na proposição de políticas públicas? e alguns deles continuam com essa fixação nos “obstáculos ao crescimento” que tanto critiquei na década de 60.” Professor Robert Solow “Hirschman, apesar de nossas diferenças de metodologia para estudar crescimento econômico, sempre houve um respeito mútuo. Sofri também várias criticas porque me acusaram de desenvolver um modelo no qual não conseguia explicar o principal fator por trás do crescimento de longo-prazo: o crescimento da produtividade que no meu modelo é um resíduo. Mas quando vejo a briga desses caras e as propostas deles me pergunto: no que extamente eles avançaram em relação ao meu modelo? É verdade que Lucas e Romer mostraram na década de 1980 que investimento em capital humano e inovação são importantes. “And so what”? como transformar essas descobertas em politicas públicas? Como o Estado deve fomentar inovação e de que forma inovação se tranforma em crescimento da produtividade total dos fatores (PTF) e crescimento de longo prazo? A relação causal é de inovação (variável exógena) para PTF ou que o aumento da taxa de investimento levaria a mais inovação (endógena) via learning-by-doing que afeta o progresso técnico?

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