quarta-feira, 30 de março de 2011

Are we all keynesians now?

Confesso que postar aqui no blog tem sido uma tarefa que eu não tenho dedicado quase nenhum tempo, mas algumas coisas imploram para serem comentadas. O artigo abaixo foi publicado no Valor dia 22/02. Leiam atentamente:

Se todos são keynesianos, o que Keynes diria a Dilma? Por Fernando Ferrari Filho e Marco Flávio Resende


"A crise financeira internacional e seus desdobramentos sobre o lado real das economias, em especial em 2009, em termos de recessão, desemprego e desaquecimento do volume de comércio, acabaram originando um consenso entre economistas acadêmicos, analistas econômicos e "policymakers", qual seja, todos passaram a ser "keynesianos" - cabe ressaltar que, infelizmente, a maioria deles tão somente por oportunismo - tanto para explicar a referida crise quando para remediá-la. "

Se acreditar que intervenções governamentais e do banco central tem o poder de influenciar a economia significa ser keynesiano, até eu seria um. A diferença está em acreditar qual é o resultado disso. Eu definiria um verdadeiro keynesiano da seguinte forma: alguém que acredita que os formuladores de politica econômica são deuses na terra, isto é, são completamente racionais e detêm toda a informação necessária sobre todos os setores da economia e, assim, sabem exatamente quanto dinheiro precisa ser investido em cada projeto, em cada setor, tem uma capacidade de cognição infinita que os permite coordenar todos os projetos simultaneamente e o pior, o keynesiano é convicto que os formuladores são isentos de qualquer propensão à corrupção e incapazes se utilizar as ferramentas que possuem para garantir popularidade e ganhar a próxima eleição (qualquer semelhança com os argumentos de Hazlitt não é nem de longe mera coincidência). O engraçado é que estes economistas pregam a intervenção do Estado por acreditar que os seres humanos não são racionais e enfrentam incertezas, mas e as pessoas que assumem cargos políticos e de planejamento, seriam estes os únicos humanos da terra que são racionais e isentos de incerteza? Os autores também se esquecem de que a crise foi causada por excesso de keynesianismo: excessiva regulação de má qualidade do mercado financeiro e banco central abrindo as pernas durante mais de uma década. Olhando para os países que estão em pior situação vemos que a maioria adotou politicas de gastança excessiva e despreocupada, ou seja, de cunho keynesiano (Portugal, Espanha, Grécia, EUA). Países com politicas mais austeras (Alemanha, Holanda, Dinamarca, Suíça) estão em muito melhor forma. Será coincidência?


“No Brasil, não foi diferente. Apesar de as autoridades econômicas terem, em um primeiro momento, subestimado os impactos da crise financeira internacional sobre a economia brasileira, as políticas monetária e fiscal contracíclicas, de cunho keynesianas, implementadas pelas autoridades econômicas foram fundamentais para que o país saísse da recessão e voltasse a crescer de forma pujante e até surpreendente - segundo estimativas preliminares, em 2010 o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve ter crescido ao redor de 7,5% -, por mais que o cenário internacional ainda seja de turbulência.”

O Brasil não afetado justamente por ter adotado medidas ortodoxas. Os pilares da nossa economia [metas de inflação, cambio flutuante e superávit (mesmo roubado por “contabilidade criativa”)] deram estabilidade macroeconômica ao país. Mais, tínhamos uma reserva de dólares que nos protegeu de ataques especulativos, reserva essa que para muitos, eu incluso, é muito maior do que precisamos. Vale lembrar que não é raro ver essas medidas sendo criticadas por economistas keynesianos, estes que também sempre que podem criticam o banco central por sua politica de juros. Ainda tem mais, o Brasil foi pouco afetado por vários motivos: nosso sistema financeiro dificulta transações com ativos estrangeiros do tipo das hipotecas americanas, o que impediu que volume de ativos podres em mãos de brasileiros fosse significante; o real se desvalorizou devido à corrida ao dólar na época do pânico, fomentando as exportações e equilibrando, um pouco, a queda da demanda externa causada pela queda da renda nos países desenvolvidos; talvez o mais importante, um dos nossos principais importadores (China) continuou forte; nossas principais importações (comodidities) tem baixa elasticidade renda da demanda (caso comum para os alimentos, onde o Brasil é um dos mais exportadores e onde somos realmente bons). Obviamente, a atuação da politica monetária e fiscal teve impactos positivos no curto prazo, no longo prazo a descoordenação causada por tais intervenção ainda pode causar problemas (descompassos entre oferta e demanda de certos bens, como na indústria de automotiva, por exemplo), mas os autores negligenciam os outros fatores citados acima, muito dos quais eles constantemente criticam.


“A "bola da vez" continua sendo a crise fiscal-financeira dos Piigs, acrônimo para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha.”

Países que praticaram expansões fiscais, excesso de gastos do governo, gigantescos resgates a bancos e empresas privadas incompetentes. Isso soa como keynesianismo para alguém além de mim?


“Se nossa atividade econômica apresenta um resultado exuberante, pelo menos no curto prazo, voltamos a enfrentar "velhos" problemas do período da prosperidade, dentre os quais a tendência à apreciação cambial, cujos efeitos são a deterioração da balança comercial e o processo de desindustrialização, e o viés do Banco Central (BC), receoso do "descontrole" da inflação, em querer subordinar a política fiscal ao regime monetário, que acabam impondo limitações para que a economia brasileira tenha estabilidade macroeconômica intertemporal (crescimento econômico robusto, inflação sob controle e equilíbrios fiscal e externo).”

Os keynesianos insistem que o BACEN é capturado pelo sistema financeiro e como tal, pratica juros muito maiores do que o necessário. Pensam dessa forma porque não veem como a taxa de juros está ligada com disponibilidade de recursos não consumidos (poupados). Eles acreditam que é possível o governo aumentar gastos, as famílias aumentar o consumo, o setor aumentar investimento tudo de uma vez, sem que haja nenhuma pressão inflacionária. Mais, eles querem, juntamente com tudo isso, que o cambio seja desvalorizado para ajudar nossa indústria incompetente. A inflação para estes economistas nada mais é do que uma invenção do sistema financeiro (analistas consultados pelo banco central) para que o BC aumente o juros e faça a festa dos banqueiros. Nesse ponto está a maior besteira do keynesianismo, o tal do investimento autonômo guiado pelo animal spirits. Segundo essa tese, gastos com investimentos não são inflacionário por estes são auto-financiáveis, isto é, o próprio investimento cria os recursos necessários para seu financiamento. Qualquer pessoa, mesmo um não economista, com um pouco de lógica na cabeça sabe que isso não pode estar certo. O investimento só aumenta a capacidade produtiva quando ele está pronto, até lá, o investimento é a mesma coisa que consumo. Uma hidrelétrica só aumenta a capacidade produtiva da economia quando está pronta e funcionando, antes disso, é necessário pagar por todos os insumos utilizados na produção e para tanto é necessário que haja recursos disponíveis, isto é, precisamos de poupança real. Se o investimento fosse realmente autonômo ou auto-financiável como os keynesianos acreditam, não haveria países pobres no mundo, pois é só imprimir moeda para iniciar os investimentos para que haja demanda e produção aumente. Senhores keynesianos, todo poder de demanda vem de uma oferta a priori, o crédito nada mais é do que o direito de usar a produção não consumida de terceiros. Crédito não é confiança! Não se constrói uma estrada com confiança. Para não ser inflacionário, o crédito PRECISA ser lastreado em poupança real. Nosso ministro da fazenda também acredita que investimento não pressiona inflação
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"Segundo ele, ainda deve haver um novo repasse do Tesouro ao BNDES em 2012, mas em um patamar menor, "tendendo a zero". Mantega também rechaçou qualquer ligação entre os recursos disponibilizados pelo banco de fomento e o aumento da inflação. "O BNDES não pressiona a inflação, uma vez que investimento permite maior oferta de produtos na economia. O problema inflacionário é do lado do consumo e não do investimento", alegou."
O investimento precisa de poupança, não que ambos seja iguais, mas o investimento não pode ser maior do que a poupança interna e externa(depende da vontade dos estrangeiros emprestarem para o Brasil). Vale lembrar também que no caso em que usamos a poupança externa estamos importando os recursos, é uma identidade. Voltando ao texto do valor.

“Para evitar os erros do passado, câmbio administrado e controle dos fluxos de capitais são imprescindíveis.”

Tivemos exatamente isso na década de 1980, foi um dos maiores erros cometidos no Brasil.


“Nesse particular, sendo todos "keynesianos" e supondo que fosse possível psicografar Keynes, quais medidas econômicas o "mestre" sugeriria para a presidente Dilma Rousseff? Centrando as atenções em algumas das proposições de política macroeconômica apresentadas por Keynes ao longo de seus escritos, reunidos nos 30 volumes dos "Collected Writings of John Maynard Keynes", publicado pela Royal Economic Society, ele proporia maior coordenação das políticas fiscal, monetária e cambial, seja para resolver "os principais problemas da sociedade econômica em que nós (Brasil, inclusive) vivemos, que são o desemprego e a arbitrária e desigual distribuição da renda e da riqueza" (John Maynard Keynes. "The General Theory, of Employment, Interest and Money". New York, HBJ Book, 1964, p.372), seja para solucionar o desequilíbrio e a vulnerabilidade externa brasileiras.”

Eu não disse que os keynesianos acreditam que são deuses? Acham que são capazes de coordenar perfeitamente todas as atividades econômicas de modo a atingir objetivos específicos. Sem contar no viés sraffiano de achar que a distribuição de renda é arbitrária, que a distribuição da renda é determinada inteiramente por fatores políticos. Tal determinação política da distribuição da renda é o que explica a curva de lucro-salário sinuosa apresenta por Sraffa que causou tanta discussão na década de setenta.


“Para tanto, Keynes proporia: 1) Política fiscal ancorada tanto na administração de gastos públicos - algo completamente diverso de déficit público - quanto na política de tributação. No que diz respeito à administração dos gastos públicos, deveria haver dois orçamentos: o corrente, para assegurar recursos à manutenção dos serviços básicos fornecidos pelo Estado à população, tais como saúde pública, educação e segurança pública, e o de capital, em que o Estado realizaria investimentos públicos complementares aos investimentos privados e fundamentais para a expansão da demanda efetiva. A ideia de Keynes com os referidos orçamentos é a de que, em períodos de prosperidade, o gasto público deve ser reduzido, ao passo que, em períodos recessivos, ele deve ser elevado. Assim, a política fiscal torna-se contracíclica e assegura o equilíbrio fiscal intertemporal do governo. A política de tributação, por sua vez, deveria concentrar-se essencialmente nos impostos sobre a renda, o capital e a herança, viabilizando, assim, uma melhora da distribuição da renda e da riqueza. Pois bem, a partir da proposição fiscal de cunho keynesiana e observando a situação fiscal brasileira dos últimos anos, percebe-se que a reduzida taxa do investimento público e a elevada carga tributária indicam que o ajuste fiscal deve se concentrar nos gastos de custeio e na racionalização do gasto público;

2) Flexibilização da política monetária para dinamizar os níveis de consumo e investimento e afetar a preferência pela liquidez dos agentes econômicos. No caso do Brasil, acrescente-se que a redução da taxa básica de juros (Selic) é fundamental para arrefecer o custo de rolagem da dívida pública;

3) Política cambial para assegurar a manutenção da taxa real efetiva de câmbio de equilíbrio e não gerar pressões inflacionárias. A taxa real efetiva de câmbio estável é fundamental pois, diante de um contexto em que a liquidez internacional continua muito elevada em função das políticas adotadas nos países centrais para superar a crise, as taxas de juros internacionais estão baixas e o crescimento dos países centrais está relativamente estagnado, as elevadas taxas de crescimento de economias emergentes (e, no caso do Brasil, também de juros) ensejam grande influxo de capitais que, por sua vez, acabam provocando a apreciação da taxa de câmbio (em especial do real). Como sabemos, essa experiência foi vivida pelo Brasil em passado recente: devido à elevada liquidez internacional o câmbio apreciou-se, o déficit em transações correntes tornou-se crescente e os superávits da conta de capital e financeira e do balanço de pagamentos elevaram-se, criando, assim, a pseudo-impressão de que esses resultados decorriam da robustez da economia. Contudo, quando a liquidez internacional foi arrefecida, o racionamento dos fluxos de capitais para a economia brasileira tornou-se uma realidade e a crise cambial se instalou, em grande parte recrudescida pela abertura financeira. Portanto, para evitarmos os erros do passado decorrentes dos desequilíbrios externos da economia brasileira, câmbio administrado e regulação e/ou controle dos fluxos de capitais são imprescindíveis.”

Para esse trecho vou emprestar as palavras do “O” Anônimo, blogueiro do “Mão Visível”, pois ele explicou o funcionamento básico da macroeconomia de um jeito que eu nunca conseguiria fazer:
“Em sua essência, pós-keynesiano é um economista que não desenvolveu as capacidades cognitivas ou analíticas para raciocinar em equilíbrio geral.

Por exemplo, escreve o Professor Marco Resende da UFMG:
“Embora esteja disseminada na literatura econômica do maistream e nos meios de comunicação a idéia de que a poupança é um pré-requisito para o investimento, este argumento não é consensual na literatura.”

Somente um pós-keynesiano engajaria nessa discussão sobre quem vem primeiro, o investimento ou a poupança. Este diálogo não passa de uma manifestação de um vazio cognitivo onde deveria haver um feixe de neurônios gritando: “Tal pergunta não faz sentido, afinal investimento e poupança são determinados simultaneamente!”

O investimento e a poupança, assim como o desemprego, a taxa de câmbio real, o nível de preços, o nível de atividade econômica, o balanço em conta corrente, entre outras, são variáveis endógenas, isto é, são determinadas simultaneamente dentro do sistema econômico (em equilíbrio geral). Quem é incapaz de entender este conceito, não é um economista de verdade e tem mais que tirar carteirinha da AKB...

Em um sistema macroeconômico, além dessas variáveis endógenas, existem também variáveis de política, como a taxa nominal de juros (SELIC), as alíquotas dos impostos, as reservas compulsórias dos bancos, a estratégia financeira do setor público, o salário mínimo nominal, a taxa de câmbio em que o governo compra ou vende moeda estrangeira quando o câmbio é fixo, a alíquota do IOF etc; e variáveis exógenas, como o preço do frete marinho, a política fiscal chinesa, os choques climáticos como o El Niño e todas as ações que podemos acreditar que não sejam influenciadas pelo que ocorre no Brasil (o que vai fazer o Bank of England amanhã?).”


Apesar de a descrição ser especifica para o pós-keynesiano, acho que podemos generalizar para os keynesianismo em geral (exceção feita para os economistas novo-keynesianos que incorporaram a noção de equilíbrio geral à sua teoria). Enfim, os autores acham que é possível combinar qualquer nível de gasto do governo, taxa de juros, taxa de cambio, inflação e todas as variáveis na canetada! Isto é, os formuladores podem manipular todas as variáveis relevantes de acordo com sua vontade, não veem que essas variáveis são determinadas simultaneamente e que certos equilíbrios são simplesmente impossíveis de serem atingidos. De forma resumida, a economia não é joguinho onde você muda as configurações que deseja para conseguir vencer, certos objetivos requerem escolhas duras.

Um comentário:

  1. Grande Flávio!!!

    vejo que não mudou nada desde que mudou de Londrina! continua atormentando os keynesianos....

    abração maluko


    Tiago Oliveira

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