quinta-feira, 27 de maio de 2010

A cigarra e a formiga__Martin Wolf. Valor Econômico, 26/05/2010

Quando as formigas chinesas pedirem às cigarras americanas que paguem sua
dívida, elas vão reduzir o valor da dívida e a poupança das formigas perderá
valor.


Todo mundo no Ocidente conhece a fábula da cigarra e a formiga. A cigarra
preguiçosa canta durante todo o verão, ao passo que as formigas poupam para
o inverno. Quando o frio chega, a cigarra pede alimento à formiga. A formiga
recusa-se a dar e a cigarra morre de fome. A moral da história? O ócio gera
escassez.

Contudo, a vida é mais complexa do que na fábula de Esopo. Hoje, as formigas
são alemães, chineses e japoneses, enquanto as cigarras são americanos,
britânicos, gregos, irlandeses e espanhóis. As formigas produzem bens
sedutores que as cigarras desejam comprar. A cigarra pergunta se as formigas
querem algo em troca. "Não", respondem as formigas. "Vocês não têm nada que
queiramos, exceto, talvez, um lugar a beira-mar. Nós vamos lhes emprestar
dinheiro. Dessa forma, vocês poderão desfrutar nossos produtos e nós
acumularemos reservas".

As formigas e as cigarras ficam felizes. Sendo frugais e prudentes, as
formigas depositam suas rendas excedentes em bancos supostamente seguros,
que as reemprestam às cigarras. Estas, por sua vez, não precisam mais
produzir bens, uma vez que as formigas os fornecem a preços baixos. Mas as
formigas não vendem casas, shopping centers ou escritórios às cigarras. Por
isso são as cigarras que os constroem. Elas podem até mesmo pedir às
formigas que venham para que executem o trabalho. As cigarras se dão conta
de que com todo esse afluxo de dinheiro, o preço dos terrenos sobem. Então,
as cigarras tomam mais empréstimos e gastam mais.

As formigas são muito melhores na fabricação de produtos reais do que na
avaliação de produtos financeiros. Então as cigarras descobrem maneiras
inteligentes de empacotar seus empréstimos em ativos atraentes para os
bancos das formigas.

Agora, o formigueiro alemão está muito perto de algumas pequenas colônias de
cigarras. As formigas alemãs dizem: "Nós queremos ser amigas. Então, por que
não usamos todos o mesmo dinheiro? Mas, primeiro, vocês devem prometer
comportarem-se como formigas para sempre". Para isso, as cigarras têm de
passar por um teste: comportarem-se como formigas por alguns anos. As
cigarras passam no teste e então são autorizadas a adotar o dinheiro da
Europa.

Todos vivem felizes, por um tempo. As formigas alemãs observam seus
empréstimos às cigarras e sentem-se ricas. Enquanto isso, nas colônias de
cigarras, seus governos examinam suas contas saudáveis e dizem: "Vejam, nós
cumprimos as regras fiscais melhor que as formigas." As formigas consideram
isso embaraçoso. Por isso, nada dizem sobre o fato de os salários e os
preços estarem subindo rapidamente nas colônias de cigarras, o que torna
seus produtos mais caros, ao mesmo tempo em que diminui o ônus dos juros
reais, estimulando, assim, ainda mais tomadas de empréstimos e construção de
imóveis.

Sensatas formigas alemãs insistem que "árvores não crescem até o céu". Os
preços dos terrenos finalmente atingem um pico nas colônias de cigarras. Os
bancos das formigas ficam compreensivelmente nervosos e pedem seu dinheiro
de volta. Assim, as cigarras devedoras são obrigadas a vender. Isso cria uma
cadeia falimentar e paralisa a construção nas colônias de cigarras e os
gastos das cigarras na compra de mercadorias das formigas. Os empregos
desaparecem - tanto nas colônias de cigarras como nos formigueiros - e os
déficits fiscais crescem, especialmente nas colônias de cigarras.

As formigas alemãs percebem que seus estoques de riqueza não valem muita
coisa, pois as cigarras não podem prover-lhes nada do que desejam, exceto
casas baratas em lugares ensolarados. O governo das formigas têm medo de
admitir que deixou seus bancos perderem dinheiro das formigas. Por isso,
eles preferem uma segunda alternativa, denominada "operação de socorro".
Simultaneamente, eles ordenam que os governos das cigarras aumentem os
impostos e cortem gastos. Agora, dizem eles, vocês têm realmente de se
comportar como formigas. Por isso, as colônias de cigarras caem em profunda
recessão. Mas as cigarras continuam incapazes de produzir algo que as
formigas queiram comprar, porque não sabem como fabricá-lo. Como as cigarras
não podem mais tomar empréstimos para comprar bens das formigas, elas morrem
de fome. As formigas alemãs finalmente dão baixa contábil de seus
empréstimos às cigarras. Mas, tendo pouco aprendido com essa experiência,
elas vendem seus produtos, em troca de ainda mais dívida, em outros lugares.

Aliás, mundo afora, existem outros formigueiros. A Ásia, em especial, está
cheia deles. Um é muito rico, algo semelhante à Alemanha, chamado Japão.
Existe também um enorme formigueiro, embora mais pobre, chamado China. Essas
formigas também querem ficar ricas vendendo mercadorias para as cigarras a
preços baixos. O formigueiro chinês chega a fixar o câmbio de sua moeda em
nível para assegurar que seus produtos sejam extremamente baratos.
Felizmente, para os asiáticos, ou assim parece, por acaso existe uma colônia
de cigarras muito grande e extraordinariamente trabalhadora, chamada EUA. Na
realidade, a única maneira de sabermos que se trata de uma colônia de
cigarras é o fato de seu lema ser: "In shopping we trust" (confiamos em
consumir). Os formigueiros asiáticos desenvolveram, com os EUA, um
relacionamento semelhante ao da Alemanha com seus vizinhos. As formigas
asiáticas acumulam pilhas de endividamento das cigarras e sentem-se ricas.

Entretanto, há uma diferença. Quando o colapso acontece nos EUA e as
famílias param de tomar empréstimos e de gastar e o déficit fiscal explode,
o governo não diz a si mesmo: "Isso é perigoso, temos de cortar gastos". Em
vez disso, o governo diz: "Precisamos gastar ainda mais, para manter a
economia funcionando". Por isso, o déficit fiscal fica enorme.

Isso deixa os asiáticos nervosos. Assim, o líder do formigeiro chinês diz:
"Nós, seus credores, insistimos em que vocês parem de tomar empréstimos,
exatamente como as cigarras europeias estão fazendo agora". O líder da
colônia americana ri: "Não pedimos que nos emprestassem esse dinheiro. Na
verdade, nós os avisamos que se tratava de uma loucura. Vamos nos assegurar
de que as cigarras americanas tenham empregos. Se vocês não quiserem nos
emprestar dinheiro, aumentem o preço de sua moeda. Então produziremos o que
costumávamos comprar e vocês não precisarão mais nos conceder empréstimos".
Dessa maneira, os EUA ensinam aos credores a lição de um falecido sábio: Se
você deve US$ 100 a um banco, você tem um problema, mas se você deve US$ 100
milhões, o problema é do banco.

O líder chinês não quer admitir que sua enorme pilha de dívida americana em
seu formigueiro não valerá o que custou. Os chineses também querem continuar
a fabricar produtos baratos para estrangeiros. Por isso, no fim das contas,
a China decide comprar ainda mais dívida americana. Mas, décadas depois, os
chineses finalmente dizem aos americanos: "Agora gostaríamos que vocês nos
fornecessem produtos em troca do que nos devem". Então, as cigarras
americanas riem e prontamente reduzem o valor da dívida. A poupança das
formigas perde valor e algumas delas, então, morrem de fome.

Qual é a moral dessa fábula? Se você quiser acumular riqueza duradoura, não
conceda empréstimos a cigarras.

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do Financial Times.


Comentários:
_O falecido sábio é o Keynes.
_O medo de que os Estados Unidos deêm calote desvalorizando o dolar vai aumentar a taxa de juros para empréstimos, então é possível que o que o autor prevê aconteça antes de algumas décadas.
_O problema todo ocorre devido à manipulações na economia, tanto o cambio artificial da moeda chinesa quanto a taxa real de juros ridiculamente baixa são culpados pela atual situação.

2 comentários:

  1. esse papo de comércio internacional me confunde sabe... depois você me explica essa história direito...

    rodrigo

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  2. Vou emprestar para você o livro do Wolf, tem muitos dados. Quando quiser é só pedir.

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