sexta-feira, 28 de maio de 2010

Produtividade cai e Brasil fica mais longe de desenvolvidos

A produtividade por empregado no Brasil caiu abaixo do nível verificado em 1980, na contramão da tendência global. A capacidade de produção do trabalhador brasileiro é três vezes menor do a que a de trabalhadores de economias industrializadas e está ameaçada pela China e outros concorrentes emergentes. Os dados são da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório que mostra a crescente diferença entre a produtividade do país e das principais economias.

O nível de vida num país depende também da produtividade, que mede quanto um trabalhador produz por hora. Os lucros das empresas crescem quando os empregados produzem mais por hora do que antes. A renda adicional pode ser repartida entre lucro extra e aumento salarial, alimentando gastos e investimentos, criando mais empregos e expandindo a economia. Para a OIT, a produtividade é mais alta quando a empresa combina melhor capital, trabalho e tecnologia. Falta de investimento na formação e qualificação e em equipamentos e tecnologias provoca subutilização do potencial da mão-de-obra.

No relatório " Principais indicadores do mercado de trabalho " (KILM, em inglês), a entidade mostra que a produtividade aumentou no mundo inteiro nos últimos dez anos, mas as disparidades persistem entre nações industrializadas e os demais países. No caso da América Latina, o ritmo de crescimento da produtividade foi o menor entre 1996-2006, período em que parte da Asia e da Europa do Leste ex-socialista começou a reduzir seu atraso.

No Brasil, a diferença no valor agregado por trabalhador cresceu especialmente em comparação com os Estados Unidos, o campeão global da produtividade, segundo a OIT. A produção por trabalhador foi de US$ 14,7 mil em 2005, abaixo dos US$ 15,1 mil de 1980. É várias vezes menor que os US$ 63,8 mil por empregado nos EUA em 2006 (e era de US$ 41,6 mil em 1980).

Na China, a produtividade dobrou em dez anos. Pulou de US$ 6,3 mil para US$ 12,5 mil por empregado entre 1996 e 2006, a mais forte alta no mundo. A produtividade chinesa era oito vezes menor que a dos industrializados, e agora passou a cinco vezes menos. O Leste da Europa registrou alta de 50%.

A produção brasileira, em comparação com os EUA, sofreu queda ainda maior. O valor agregado por empregado no país era equivalente a 36,5% do atingido pelos americanos em 1980, e caiu para 23,5% em 2005. Na direção oposta, a produtividade da Coréia do Sul pulou de 28% para 68% em relação à dos EUA no período.

No setor industrial, a diferença cresce. A produção por empregado industrial no Brasil representava 19% daquela dos EUA em 1980. Agora, declinou para 5% em 2005. O valor agregado na indústria brasileira foi de US$ 7.142 para US$ 5.966 por empregado entre 1980 e 2005. Já a China aumentou o valor agregado industrial em 7,9%. Com isso, reduziu a diferença com os EUA, e a produtividade passou a ser o equivalente a 12% da americana, e não mais 5%.

A produtividade brasileira só cresceu no setor agrícola, florestas e pesqueiro, ficando em média em 3,6%, mas esse ritmo foi inferior ao da China e de alguns países que subsidiam altamente suas agriculturas, como Noruega e Coréia. Com a alta de 3,6% ao ano, o valor por trabalhador brasileiro no setor aumentou de US$ 2.356, em 1980, para US$ 5.700 em 2005. Em contrapartida, os chineses, ao iniciarem a reforma agrícola, com menor coletivização das terras, registraram alta de 4% por ano de produtividade agrícola, triplicando de US$ 330 para US$ 910 por pessoa entre 1980 e 2006. No comércio, onde é maior o uso de tecnologia da informação e de novos modelos de negócios, a produtividade brasileira por trabalhador declinou no período de US$ 3,945 para US$ 4 1.726.

A carga de trabalho dos americanos foi calculada em 1.804 horas em 2006, bem acima da média dos países desenvolvidos, como França (1.540 horas, ou 300 a menos com a carga de 35 horas semanais), Alemanha (1.436 horas) e Japão (1.784 horas). Em boa parte dos emergentes, a carga de trabalho fica bem acima de 1.800 horas. O dado sobre o Brasil é ainda de 1999, quando era estimada em pouco mais de 1.600 horas por ano.

Quando a OIT mede o valor por hora trabalhada, o Brasil também está lá embaixo. A produtividade por hora trabalhada fica em torno de US$ 7,50, valor quase idêntico ao de 1980. Não há dados sobre a China, mas aí é a Noruega, e não os EUA, que tem a mais alta produtividade, de US$ 38 por hora, seguido pelos americanos, com US$ 35,60. A França é o terceiro país com maior nível de valor agregado por hora, de US$ 35.

Para o diretor-executivo do setor de emprego da OIT, José Maria Salazar, dentro de três anos a China pode superar a produtividade da América Latina, que no momento é um terço maior (US$ 18,9 mil) que a chinesa. Mas o assessor nota que no Brasil e no resto da América Latina, em cada dez empregos, sete são criados no setor informal, sem proteção social e com pouca qualificação.

Para reforçar a tendência do perigo chinês, o relatório mostra que só na América Latina subiu a " ? vulnerabilidade do emprego " ? , com menor redução no número de pobres. Já a China é tomada como exemplo de país com amplo aumento de produtividade, que consegue baixar o número de pessoas vivendo com menos de US$ 2 por dia.

" O incremento de produtividade é enorme na agricultura da China, com grande transformação ao deixar a agricultura coletivizada, mas o maior incremento é na manufatura, graças à taxa de investimento anual muito alta, de cerca de 30% " , afirma. " Há muita inovação tecnológica, investimentos fortíssimos na educação e uma reserva de mão-de-obra barata. "

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Virgil Donati / Scott Henderson / Ricc Fierabracci - Just Add Water

Este é com certeza o melhor albúm que eu conheço. Nem um outro trabalho tem tanto conteúdo musical quanto esse albúm dos espetaculares Virgil e Scott. Na minha opinião é o melhor, mas não o favorito. Meu albúm favorito é este.

On Manners do Just Add Water é absurdamente incrivel, vale a pena escutar.

A cigarra e a formiga__Martin Wolf. Valor Econômico, 26/05/2010

Quando as formigas chinesas pedirem às cigarras americanas que paguem sua
dívida, elas vão reduzir o valor da dívida e a poupança das formigas perderá
valor.


Todo mundo no Ocidente conhece a fábula da cigarra e a formiga. A cigarra
preguiçosa canta durante todo o verão, ao passo que as formigas poupam para
o inverno. Quando o frio chega, a cigarra pede alimento à formiga. A formiga
recusa-se a dar e a cigarra morre de fome. A moral da história? O ócio gera
escassez.

Contudo, a vida é mais complexa do que na fábula de Esopo. Hoje, as formigas
são alemães, chineses e japoneses, enquanto as cigarras são americanos,
britânicos, gregos, irlandeses e espanhóis. As formigas produzem bens
sedutores que as cigarras desejam comprar. A cigarra pergunta se as formigas
querem algo em troca. "Não", respondem as formigas. "Vocês não têm nada que
queiramos, exceto, talvez, um lugar a beira-mar. Nós vamos lhes emprestar
dinheiro. Dessa forma, vocês poderão desfrutar nossos produtos e nós
acumularemos reservas".

As formigas e as cigarras ficam felizes. Sendo frugais e prudentes, as
formigas depositam suas rendas excedentes em bancos supostamente seguros,
que as reemprestam às cigarras. Estas, por sua vez, não precisam mais
produzir bens, uma vez que as formigas os fornecem a preços baixos. Mas as
formigas não vendem casas, shopping centers ou escritórios às cigarras. Por
isso são as cigarras que os constroem. Elas podem até mesmo pedir às
formigas que venham para que executem o trabalho. As cigarras se dão conta
de que com todo esse afluxo de dinheiro, o preço dos terrenos sobem. Então,
as cigarras tomam mais empréstimos e gastam mais.

As formigas são muito melhores na fabricação de produtos reais do que na
avaliação de produtos financeiros. Então as cigarras descobrem maneiras
inteligentes de empacotar seus empréstimos em ativos atraentes para os
bancos das formigas.

Agora, o formigueiro alemão está muito perto de algumas pequenas colônias de
cigarras. As formigas alemãs dizem: "Nós queremos ser amigas. Então, por que
não usamos todos o mesmo dinheiro? Mas, primeiro, vocês devem prometer
comportarem-se como formigas para sempre". Para isso, as cigarras têm de
passar por um teste: comportarem-se como formigas por alguns anos. As
cigarras passam no teste e então são autorizadas a adotar o dinheiro da
Europa.

Todos vivem felizes, por um tempo. As formigas alemãs observam seus
empréstimos às cigarras e sentem-se ricas. Enquanto isso, nas colônias de
cigarras, seus governos examinam suas contas saudáveis e dizem: "Vejam, nós
cumprimos as regras fiscais melhor que as formigas." As formigas consideram
isso embaraçoso. Por isso, nada dizem sobre o fato de os salários e os
preços estarem subindo rapidamente nas colônias de cigarras, o que torna
seus produtos mais caros, ao mesmo tempo em que diminui o ônus dos juros
reais, estimulando, assim, ainda mais tomadas de empréstimos e construção de
imóveis.

Sensatas formigas alemãs insistem que "árvores não crescem até o céu". Os
preços dos terrenos finalmente atingem um pico nas colônias de cigarras. Os
bancos das formigas ficam compreensivelmente nervosos e pedem seu dinheiro
de volta. Assim, as cigarras devedoras são obrigadas a vender. Isso cria uma
cadeia falimentar e paralisa a construção nas colônias de cigarras e os
gastos das cigarras na compra de mercadorias das formigas. Os empregos
desaparecem - tanto nas colônias de cigarras como nos formigueiros - e os
déficits fiscais crescem, especialmente nas colônias de cigarras.

As formigas alemãs percebem que seus estoques de riqueza não valem muita
coisa, pois as cigarras não podem prover-lhes nada do que desejam, exceto
casas baratas em lugares ensolarados. O governo das formigas têm medo de
admitir que deixou seus bancos perderem dinheiro das formigas. Por isso,
eles preferem uma segunda alternativa, denominada "operação de socorro".
Simultaneamente, eles ordenam que os governos das cigarras aumentem os
impostos e cortem gastos. Agora, dizem eles, vocês têm realmente de se
comportar como formigas. Por isso, as colônias de cigarras caem em profunda
recessão. Mas as cigarras continuam incapazes de produzir algo que as
formigas queiram comprar, porque não sabem como fabricá-lo. Como as cigarras
não podem mais tomar empréstimos para comprar bens das formigas, elas morrem
de fome. As formigas alemãs finalmente dão baixa contábil de seus
empréstimos às cigarras. Mas, tendo pouco aprendido com essa experiência,
elas vendem seus produtos, em troca de ainda mais dívida, em outros lugares.

Aliás, mundo afora, existem outros formigueiros. A Ásia, em especial, está
cheia deles. Um é muito rico, algo semelhante à Alemanha, chamado Japão.
Existe também um enorme formigueiro, embora mais pobre, chamado China. Essas
formigas também querem ficar ricas vendendo mercadorias para as cigarras a
preços baixos. O formigueiro chinês chega a fixar o câmbio de sua moeda em
nível para assegurar que seus produtos sejam extremamente baratos.
Felizmente, para os asiáticos, ou assim parece, por acaso existe uma colônia
de cigarras muito grande e extraordinariamente trabalhadora, chamada EUA. Na
realidade, a única maneira de sabermos que se trata de uma colônia de
cigarras é o fato de seu lema ser: "In shopping we trust" (confiamos em
consumir). Os formigueiros asiáticos desenvolveram, com os EUA, um
relacionamento semelhante ao da Alemanha com seus vizinhos. As formigas
asiáticas acumulam pilhas de endividamento das cigarras e sentem-se ricas.

Entretanto, há uma diferença. Quando o colapso acontece nos EUA e as
famílias param de tomar empréstimos e de gastar e o déficit fiscal explode,
o governo não diz a si mesmo: "Isso é perigoso, temos de cortar gastos". Em
vez disso, o governo diz: "Precisamos gastar ainda mais, para manter a
economia funcionando". Por isso, o déficit fiscal fica enorme.

Isso deixa os asiáticos nervosos. Assim, o líder do formigeiro chinês diz:
"Nós, seus credores, insistimos em que vocês parem de tomar empréstimos,
exatamente como as cigarras europeias estão fazendo agora". O líder da
colônia americana ri: "Não pedimos que nos emprestassem esse dinheiro. Na
verdade, nós os avisamos que se tratava de uma loucura. Vamos nos assegurar
de que as cigarras americanas tenham empregos. Se vocês não quiserem nos
emprestar dinheiro, aumentem o preço de sua moeda. Então produziremos o que
costumávamos comprar e vocês não precisarão mais nos conceder empréstimos".
Dessa maneira, os EUA ensinam aos credores a lição de um falecido sábio: Se
você deve US$ 100 a um banco, você tem um problema, mas se você deve US$ 100
milhões, o problema é do banco.

O líder chinês não quer admitir que sua enorme pilha de dívida americana em
seu formigueiro não valerá o que custou. Os chineses também querem continuar
a fabricar produtos baratos para estrangeiros. Por isso, no fim das contas,
a China decide comprar ainda mais dívida americana. Mas, décadas depois, os
chineses finalmente dizem aos americanos: "Agora gostaríamos que vocês nos
fornecessem produtos em troca do que nos devem". Então, as cigarras
americanas riem e prontamente reduzem o valor da dívida. A poupança das
formigas perde valor e algumas delas, então, morrem de fome.

Qual é a moral dessa fábula? Se você quiser acumular riqueza duradoura, não
conceda empréstimos a cigarras.

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do Financial Times.


Comentários:
_O falecido sábio é o Keynes.
_O medo de que os Estados Unidos deêm calote desvalorizando o dolar vai aumentar a taxa de juros para empréstimos, então é possível que o que o autor prevê aconteça antes de algumas décadas.
_O problema todo ocorre devido à manipulações na economia, tanto o cambio artificial da moeda chinesa quanto a taxa real de juros ridiculamente baixa são culpados pela atual situação.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A deflação é realmente ruim?

Um dos maiores medos dos economistas é a deflação, pois com quedas continuadas nos níveis de preços, os tomadores de empréstimos perderiam a capacidade de pagar suas dívidas contratadas a níveis de preços mais altos. O resultado disso seria uma quebradeira geral com insolvência do sistema bancario e consequentemente estagnação econômica. Pois bem, encontrei esse site interessante que me fez refletir sobre o assunto.
O sistema calcula as variações do poder de compra do dólar ao longo do período 1774-2009. É possível saber quanto valeriam 100 dólares de 2000 no ano 1990. Curioso como sou, fiz alguns cálculos. Segundo os temerosos da deflação, esta causa recessões econõmicas, pois bem, alguém aqui dúvida que a economia norte-americana prosperou absurdamente entre 1800 e 1913?? Acho que ninguém duvida disso.....
O estranho é que 100 dólares de 1800 valeriam a mesma coisa que 78,9 dólares de 1913, ou seja, houve deflação no período de maior crecimento econômico dos Estados Unidos.
Por que eu escolhi o ano de 1913?? Simples,porque esse é o ano em que o FED foi criado. Olhem outra curiosidade, 2230 dólares de 2009 tem o mesmo poder de compra de 100 dólares em 1913. Será que que é só coincidência???

Update: encontrei esse trecho sobre deflação em um artigo do Instituto Von Mises Brasil.
Deflação - queda de preços - é impensável, e causaria uma catastrófica depressão.

A memória do público é curta. Esquecemos que, do início da Revolução Industrial, em meados do século XVIII, até o início da Segunda Guerra Mundial, os preços geralmente caíram, ano após ano. Isso porque um contínuo aumento da produtividade e da produção de bens, gerado pelo livre mercado, levou a uma queda nos preços. Não houve depressão, no entanto, já que os custos caíram junto com os preços de venda. Em geral, os salários permaneceram constantes, enquanto que o custo de vida caiu - de tal forma que os salários "reais", ou o padrão de vida de todos, aumentou constantemente.

Praticamente a única época em que os preços subiram, naqueles dois séculos, foi em períodos de guerra (Guerra de 1812, Guerra Civil, Primeira Guerra Mundial). Os governos em guerra inflaram descontroladamente a oferta monetária para pagar pela guerra, de modo que essa inflação foi bem maior do que os ganhos em produtividade - o que levou ao aumento dos preços.

Podemos ver como o capitalismo de livre mercado - quando não oprimido por inflação do governo ou de um banco central - funciona se olharmos para o que tem acontecido nos últimos anos com o preço dos computadores. Mesmo um simples computador costumava ser enorme, custando milhões de dólares. Agora, com o incrível surto de produtividade trazido pela revolução do microchip, os preços dos computadores estão caindo nesse mesmo momento em que escrevo. A indústria computacional tem tido sucesso apesar da queda dos preços porque seus custos têm caído, e a produtividade, subido. Na verdade, essa queda de custos e de preços permitiu a ela produzir para uma variada massa de consumidores, uma característica do crescimento dinâmico do capitalismo de livre mercado. A "deflação" não trouxe nenhum desastre para a indústria.

O mesmo ocorre para outras indústrias com alto crescimento, como a de calculadoras eletrônicas, aparelhos de TV, e videocassetes. Deflação, longe de trazer uma catástrofe, é a marca tradicional de um crescimento econômico sadio e dinâmico.

Nova Update: Guido Mantega teme a deflação.

SÃO PAULO - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que os países do G-20 concluíram em encontro durante o final de semana que existe uma tendência mundial para a queda de preços no próximo ano. "O perigo maior é de deflação", disse, durante entrevista de encerramento da reunião, em São Paulo.
Mantega explicou que alguns países emergentes que estão registrando uma forte saída de capitais em decorrência da crise financeira podem enfrentar um movimento de inflação passageira, porque o fluxo financeiro negativo desvaloriza suas moedas. "Mas esse é um movimento passageiro. A tendência em 2009 é de deflação, acompanhando a desaceleração do nível de atividade econômica no mundo", disse.



Questionado se o Banco Central brasileiro não iria acompanhar as medidas internacionais de cortes nas taxas de juros, Mantega afirmou que cada país está encontrando uma maneira específica de recuperar a liquidez no sistema financeiro. "Uns abaixaram (os juros) antes, outros depois. Todos devem calibrar a política monetária de acordo com suas peculiaridades", disse.



Ele voltou a ressaltar que a tendência, a médio e longo prazo, é de queda de preços, e afirmou que as autoridades monetárias saberão regular suas políticas para enfrentar esse novo cenário. Sobre a taxa de juros no Brasil, Mantega afirmou: "Se havia antes preocupação com excesso de demanda, ela dará lugar a outras preocupações. Mas cabe ao Banco Central decidir quando a política vai responder a essas necessidades".



Desde abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) vinha aumentando a taxa básica de juros brasileira, a Selic (atualmente em 13,75% ao ano) para combater o aumento de preços no País. Diante das perspectivas de agravamento da crise, porém, o Comitê decidiu em sua última reunião, em outubro, manter a taxa no nível em que estava.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A autonomia do BC não é um capricho. Por Carlos Alberto Sardenberg

A autonomia (ou independência) do Banco Central não é uma imposição do mercado, muito menos um capricho de jornalistas econômicos nervosinhos.

É uma condição necessária do regime de metas de inflação, uma política baseada em sólida teoria e, mais importante, na prática bem-sucedida de mais de uma centena de países, aqui incluídas as democracias mais importantes.

Bem resumido, funciona assim: o governo determina ao Banco Central a meta de inflação. O BC persegue esse objetivo fixando a taxa básica de juros a taxa mínima, o custo do dinheiro para os bancos. Se a inflação e, mais importante, as expectativas de inflação estão em alta, sobem os juros. E inversamente.

O objetivo é alcançar o maior crescimento possível, com a inflação na meta. Bobagem, portanto, dizer que o BC só se preocupa com a inflação. A ideia é a estabilidade como condição para o crescimento.

O BC toma decisões com base em cenários econômicos, fundados em ampla análise de dados. Não é secreto.

A cada três meses, o BC publica o Relatório de Inflação, alentado documento no qual revela como vê a economia brasileira e mundial. Além disso, o BC leva em conta o cenário de mercado, ou seja, os dados e análises produzidos por instituições financeiras, consultorias, institutos de pesquisa, também publicados.

A cada seis semanas, reúne-se o Comitê de Política Monetária, Copom, formado pelos diretores do BC. São duas tardes de discussões e, por fim, a votação sobre a taxa de juros. Também não é secreto. Uma semana depois, o BC divulga a ata da reunião, que explica a decisão.

Funciona assim no mundo inteiro.

Há muita discussão para aperfeiçoar o sistema, mas com amplo acordo sobre a importância de autonomia. Nos regimes mais eficientes, o BC tem independência prevista em lei. Os diretores, indicados pelo chefe do governo e aprovados pelo Congresso, têm mandatos fixos, em geral passando de um governo para outro.

No caso brasileiro, a autonomia não está na lei, mas foi respeitada na prática pelos presidentes FHC e Lula. Essa autonomia evita a politização da decisão, garantindo que seja a mais técnica possível. A prática mundial tem demonstrado que funciona. O Brasil pratica esse regime desde 1999, ano que fechou com a inflação em 9% (pelo IPCA) e a taxa básica de juros a 19% ao ano, tendo chegado a picos de 45%. Dez anos depois, o país registrou inflação de 4,3%, com juros a 8,75%. Isso e mais a atuação na crise deram ao BC brasileiro sólida reputação internacional.

Houve outros fatores essenciais de estabilidade, como a Lei de Responsabilidade Fiscal e as privatizações, o ajuste nos Estados, a reforma financeira, o ambiente mundial favorável. Mas o regime de metas foi uma prática crucial.

José Serra disse na entrevista à CBN que o BC não é Santa Sé e que pode ser criticado. Ora, é óbvio. Mais que isso, o BC é vigiado, comentado e criticado o tempo todo. Faz parte do ritual.

Mas quando o BC tem credibilidade, quando as pessoas e o mercado acreditam que ele tem o poder e a capacidade de entregar a inflação na meta, a taxa de juros necessária para isso é cada vez menor.

Ao contrário, quando se percebe que o BC é manipulado pelo governante do momento, todo o sistema desmorona. Por que a gente perderia tempo decifrando o Relatório de Inflação e as atas do Copom se a opinião do presidente da República é a que conta? Serra também disse que, eleito presidente, vai intervir quando achar que o BC cometeu um erro clamoroso.

Ora, em quais estudos Serra se basearia para decretar que o BC está errado? Reparem: o procedimento e as análises do BC são fundamentadas e conhecidas de todos. O presidente da República faria a mesma coisa ou simplesmente decretaria vocês são uns idiotas e a taxa é de 5%? E por que a gente deveria acreditar na suposta sabedoria dele? Ou seja, ninguém está nervosinho porque o candidato Serra critica o BC. O que todos, a começar pelos eleitores que desfrutam da inflação baixa, gostariam de saber é o que ele colocaria no lugar de um BC autônomo.

Serra também tem dito que algo está errado com os juros, muito elevados, e o dólar, muito barato, no Brasil. Muita gente pensa igual, de modo que essa não é a questão. O candidato precisa dizer, primeiro, qual a opinião dele sobre a causa disso.

Os juros são altos porque o BC é imbecil ou porque, como entendem muitos analistas, a dívida pública ainda é muito elevada e o gasto público sempre expansionista? A partir daí, o candidato precisaria dizer qual seu plano para derrubar juros e desvalorizar o real, sem que isso cause a inflação que tem na Argentina, por exemplo.

Fonte: Jornal “O Globo” - 13/05/2010

Minha opinião:

A eleição é uma forma muito ineficiente dos indivíduos demonstrarem suas preferências por políticas públicas. Podemos escolher entre Serra ou Dilma, mas não podemos escolher a política fiscal do Serra e a relação com o Banco Central proposta por Dilma (estou supondo que seja a mesma de Lula). Além disso, o voto tem peso único, não podemos dizer o quanto realmente apoiamos um candidato. O resultado disso tudo é que vou ter que votar no Serra, mesmo temendo seu comportamente quanto à indepêndencia do Banco Central. Serra vem da escola campinense e isso é preocupante para o país, já que a UNICAMP está cheia de keynesianos e cepalinos estruturalistas.

OBS: a indepência do Banco Central, mesmo nos países centrais, pode ser contestada. Como Sadenberg destacou, o BC tem autonomia para cumprir uma agenda específica, que na maioria dos casos é garantir o pleno emprego dentro de um limite de inflação. Não é um sistema ruim, o problema é que os indices de preços não medem a inflação e sim uma consequência da verdadeira inflação, o aumento da base monetária. Um exemplo desse problema é a bolha imobiliária nos EUA, Greenspan defende sua política monetária expansionista dizendo que a inflação estava sob controle, pois bem, ele não está mentindo. O erro do ex Charmain do FED foi confiar demais nos índices de preços, estes que são uma medida grosseira dos preços da economia. Os preços de imóveis não fazem parte do índice utilizado para a meta de inflação do FED, ou seja, a expansão do FED foi direcionada para o mercado imobiliário e não apareceu nos índices de preços utilizados. O resultado foi a bolha imobiliária.

Uma carta para Ronnie. Por Lars Ulrich.

O site oficial do Metallica foi atualizado com a seguinte carta de Lars Ulrich, a respeito do falecimento de Ronnie James Dio:

A original.

Dear Ronnie,
I just got off stage in Zagreb. I was met with the news that you've passed on. I'm kind of in shock, but I wanted you to know that you were one of the main reasons I made it onto that stage to begin with. When I first saw you in Elf, opening for Deep Purple in 1975, I was completely blown away by the power in your voice, your presence on stage, your confidence, and the ease with which you seemed to connect to 6000 Danish people and one starry-eyed 11 year old, most of whom were not familiar with Elf's music. The following year, I was so psyched when I heard the results of you joining forces with my favorite guitar player. You guys sounded so right for each other and I instantly became Rainbow's #1 fan in Denmark. In the fall of 1976, when you played your first show in Copenhagen, I was literally in the front row and the couple of times we made eye contact you made me feel like the most important person in the world. The news that you guys were staying in town on your day off somehow embedded itself in my brain and I made the pilgrimage to the Plaza Hotel to see if I could somehow grab a picture, an autograph, a moment, anything. A few hours later you came out and were so kind and caring... pictures, autographs and a couple minutes of casual banter. I was on top of the world, inspired and ready for anything. Rainbow came to Copenhagen a couple more times over the next few years and each time you guys blew my mind, and for a good three years were my absolute favorite band on this planet. Over the years I've been fortunate enough to run into you a half dozen times or so and each time you were as kind, caring and gracious as you were in 1976 outside the hotel. When we finally got a chance to play together in Austria in 2007, even though I may not have let on, I was literally transformed back to that little snot nosed kid who you met and inspired 31 years earlier and it was such a fucking honor and a dream come true to share a stage with you and the rest of the legends in Heaven and Hell. A couple of weeks ago when I heard that you were not going to be able to make it to the Sonisphere shows that we would be sharing this June, I wanted to call you and let you know that I was thinking of you and wish you well, but I kind of pussied out, thinking the last thing you needed in your recovery was feeling obligated to take a phone call from a Danish drummer/fan boy. I wish I'd made that call. We will miss you immensely on the dates, and we will be thinking of you with great admiration and affection during that run. It seemed so right to have you out on tour with the so-called “Big Four” since you obviously were one of the main reasons that the four bands even exist. Your ears will definitely be burning during those two weeks because all of us will be talking, reminiscing and sharing stories about how knowing you has made our lives that much better.

Ronnie, your voice impacted and empowered me, your music inspired and influenced me, and your kindness touched and moved me. Thank you.

Much love,

Lars


A tradução do site www.metalremains.com

Querido Ronnie,

Eu acabei de sair do palco em Zagreb. Eu recebi a notícia de que você se foi. Eu estou meio em choque, mas eu quero que você saiba que você era uma das principais razões de eu ter chegado até este palco, para começar. Quando eu te vi pela primeira vez no Elf, abrindo para o Deep Purple em 1975, eu fui detonado pelo poder de sua voz, sua presença de palco, sua confiança, e a facilidade com que você parecia se conectar com os 6 mil dinamarqueses e um menino de 11 anos estarrecido, a maioria que não estava familiarizado com a música do Elf. No ano seguinte, eu estava tão animado quando ouvi os resultados de você juntando forçar com meu guitarrista favorito. Vocês soavam tão certos um para o outro e eu instantaneamente tornei o fã número 1 do Rainbow na Dinamarca. No outono de 1976, quando você tocou seu primeiro show em Copenhagen, eu estava literalmente na primeira fila e as poucas vezes que tivemos contato visual, você me fez sentir a pessoa mais importante do mundo. A notícia de que vocês ficariam na cidade no dia de descanso, de alguma forma grudou no meu cérebro e eu fiz a jornada até o Plaza Hotel para ver se eu poderia de alguma forma conseguir uma foto, um autógrafo, um momento, qualquer coisa. Algumas horas depois você saiu e foi tão gentil e atencioso... Fotos, autógrafos e alguns minutos de brincadeiras casuais. Eu estava no topo do mundo, inspirado e pronto para qualquer coisa. Rainbow veio a Copenhagen mais algumas vezes nos anos seguintes e cada vez vocês detonavam minha mente, e por uns bons três anos vocês foram minha banda favorita absoluta neste planeta. Durante os anos, eu fui sortudo o suficiente em cruzar com você meia dúzia de vezes mais ou menos, e cada vez você era tão gentil, atencioso e gracioso como foi em 1976 fora do hotel. Quando nós finalmente tivemos a chance de tocarmos juntos na Áustria em 2007, mesmo que eu não tenha deixado transparecer, eu fui literalmente transformado de volta naquele garoto ranhento que você encontrou e inspirou 31 anos antes, e foi uma grande honra e um sonho que se tornou verdade compartilhar um palco com você e o resto das lendas no Heaven and Hell. Algumas semanas atrás quando eu ouvi que você não conseguiria tocar nos shows do Sonisphere que nós compartilharíamos em Junho, eu queria te ligar para que soubesse que eu estava pensando em você e te desejar bem, mas eu meio que fugi, achando que a última coisa que você precisaria em sua recuperação era se sentir obrigado a receber uma chamada de um fã/baterista dinamarquês. Eu gostaria de ter feito essa chamada. Nós sentiremos muito sua falta nas datas, e nós pensaremos em você com grande admiração e afeto durante esse trajeto. Parecia tão certo ter você em turnê com os chamados "Big Four" já que obviamente você era uma das principais razões das quatro bandas até existirem. Seus ouvidos definitivamente queimarão durante essas duas semanas porque todos nós falaremos, relembraremos e compartilharemos histórias sobre como te conhecer tornou nossas vidas muito melhor.

Ronnie, sua voz impactou e me deu forças, sua música me inspirou e influenciou, e sua generosidade me tocou e me moveu. Obrigado.

Com amor,

Lars

domingo, 16 de maio de 2010

R.I.P Ronnie James Dio.

Hoje um dos melhores vocalistas de todos os tempos faleceu, Ronnie James Dio foi vencido pelo cancêr. Uma perda simplesmente inestimável para o mundo do verdadeiro Rock. Dio era um monstro e vai fazer muita falta nesse mundo!!

Minha favorita do Dio.


Outra muito foda.



Long Live Dio!


Muito triste....

A solução de Keynes.

" Se — por qualquer razão — a queda da taxa de juros não puder
ser tão rápida quanto a queda da eficiência marginal do capital de-
terminada por uma acumulação correspondente ao que a comunidade
preferiria poupar a uma taxa de juros igual à eficiência marginal do
capital em situação de pleno emprego, então mesmo um desvio do
desejo de guardar riqueza para a aquisição de bens que, de fato, não
produzirão nenhum fruto econômico, aumentará o bem-estar econômico.
O dia em que a abundância de capital venha a interferir com a abun-
dância da produção pode ser postergado à medida que os milionários
encontrem satisfação em edificar vastas mansões para nelas morarem
enquanto vivos e pirâmides para se recolherem depois de mortos, ou,
arrependidos de seus pecados, levantem catedrais e dotem mosteiros
ou missões no estrangeiro. “Cavar buracos no chão” à custa da poupança
não só aumentará o emprego, como também a renda nacional em bens
e serviços úteis. Contudo, não é razoável que uma comunidade sensata
concorde em depender de paliativos tão fortuitos e freqüentemente tão
extravagantes, quando já sabemos de que influências depende a de-
manda efetiva. "

Como somos burros. Porque estamos preocupados com a crise?? Segundo o grande Keynes, a solução é cavar buracos e assim aumentar o emprego e a renda!!

O keynesiano acredita que a chave para a prosperidade econômica de longo prazo é a gastança - e se isso exigir déficits governamentais, que assim seja. Para o keynesiano, não importa quem irá gastar o dinheiro, nem de onde vem o dinheiro e nem em que ele será gasto. Os seguidores de Keynes acreditam que a estrutura produtiva da economia é um mero detalhe. Posso estar muito enganado, mas acredito que a produção venha antes do consumo!


O trecho foi extraído da Teoria Geral, pag.216 da edição Os Economistas.

sábado, 15 de maio de 2010

Modern Macroeconomic Models as Tools for Economic Policy.

O Presidente do FED-Minneapolis sobre a evolução e os novos desafios dos modelos macroecônomicos.

Porque o Keynesianismo não passa de uma besteira?

Aqui está uma boa resposta.


Sobre a pergunta no final do vídeo, porque será que os políticos adoram Keynes??

No Brasil é ainda mais fácil de ver o motivo.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Seree lee Mozart - Rondo Alla Turca



Esse video mostra como o Heavy Metal e a Música Clássica são estilos próximos. Aumentar a velocidade acentuando fortemente o final dos compassos - para não passar a falsa impressão de tempo reto - foi tudo que esse tailandês precisou para colocar a obra de prima de Mozart em uma linha Heavy Metal.

Na mira do Régis. CINE



Regis Tadeu é editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera, diretor de redação da Editora Aloha, crítico musical/jurado do Programa Raul Gil e apresenta/produz na Rádio USP (93,7) o programa Rock Brazuca.


Muito deprimente ver CINE fazendo sucesso. O engraçado é ver como as mulheres tem maiores tendências em serem atraídas por porcarias musicais. Por que será???

sábado, 8 de maio de 2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Em defesa dos déficits.

Esse puxou ao pai.

Alguns comentários:
"The misinformation is rooted in what many consider to be plain common sense. It may seem like homely wisdom, especially, to say that "just like the family, the government can't live beyond its means." But it's not. In these matters the public and private sectors differ on a very basic point. Your family needs income in order to pay its debts. Your government does not."
Se fosse verdade, porque desde as épocas mais remotas, todos os governo cobraram impostos?? Segundo James K. Galbraith isso é uma burrice, pois o governo não precisa de renda para pagar seus débitos.


"Private borrowers can and do default. They go bankrupt (a protection civilized societies afford them instead of debtors' prisons). Or if they have a mortgage, in most states they can simply walk away from their house if they can no longer continue to make payments on it. With government, the risk of nonpayment does not exist. Government spends money (and pays interest) simply by typing numbers into a computer. Unlike private debtors, government does not need to have cash on hand. As the inspired amateur economist Warren Mosler likes to say, the person who writes Social Security checks at the Treasury does not have the phone number of the tax collector at the IRS. If you choose to pay taxes in cash, the government will give you a receipt--and shred the bills. Since it is the source of money, government can't run out.”
Credores da Argentina e México discordariam. Galbraith encontrou o Santo Graal da economia, a solução para todos os problemas é imprimir moeda. Como os economistas são burros de não terem descoberto isso anteriormente!!!


“Public defaults happen only when governments don't control the currency in which they owe debts--as Argentina owed dollars or as Greece now (it hasn't defaulted yet) owes euros.”
Resumindo: quem imite a própria moeda não corre riscos de insolvência, ou seja, mais de 80% dos governos de todo o mundo podem entrar na farra.

Economistas heterodoxos são engraçados, sempre menosprezando as reações e motivações humanas.

sábado, 1 de maio de 2010

Duas tradições no campo da filosofia social: liberalismo e marxismo.

27/04/2010

Instituto Millenium - Paulo Roberto de Almeida.

Teoria social é uma expressão que costuma designar um conjunto organizado e sistemático de proposições sobre o homem e a sociedade, cuja “construção” está normalmente associada à sociedade industrial que emergiu no Ocidente a partir da revolução industrial. Desde essa época, duas propostas globais, que podem ser consideradas mais relevantes em termos de “filosofia de vida” e de orientação para as políticas públicas, competem entre si na adesão de intelectuais e homens públicos: o liberalismo e o marxismo. Vejamos rapidamente a trajetória de cada uma delas.

Enquanto a primeira corrente não costuma ter muitas variantes – posto que baseada num número restrito de proposições muito simples, englobando tanto o campo econômico, como o político –, a segunda conheceu muitas versões desde sua emergência a partir das obras de Marx e Engels: ela se dividiu logo no final do século XIX entre sua versão social-democrática (socialista) e diversas correntes insurrecionais, entre as quais o bolchevismo leninista, o marxismo gramsciano e o trotsquismo (que por sua vez conseguiu se fraturar em diversas tribos concorrentes).

O marxismo conheceu revisionismos de diversos tipos – sendo abandonado como base doutrinal pelos grandes partidos socialistas do Ocidente – e praticamente desapareceu no terreno da política concreta, posto que já não existem mais partidos comunistas influentes na atualidade. Hoje, ele sobrevive apenas em pequenas seitas inexpressivas e, de forma mais atuante, nas universidades, especialmente nos cursos de ciências sociais; e, com muita ênfase, em países capitalistas atrasados (como os da América Latina, por exemplo, em cujas universidades muitos acadêmicos vivem ainda naquele estado mental que o jovem Marx chamaria de “alienação”).

O liberalismo, por sua vez, é uma teoria social que quase não encontra seguidores entre os membros da academia – salvo em alguns redutos de pensamento econômico mais ortodoxo – e encontra menos seguidores ainda entre os capitalistas, que muito frequentemente preferem as gordas tetas do estado à livre concorrência dos mercados. Mas, diversamente do marxismo, o liberalismo praticamente não conhece revisionismos, apenas algumas variantes que representam acomodações práticas às condições do mundo moderno, inevitavelmente burocratizado, com estados geralmente sobredimensionados, superprotetores e cerceando o liberalismo por um sem-número de regulamentações, restrições, normas impeditivas das liberdades humanas e da livre iniciativa.

As razões dessa diferença de trajetórias, entre a explosão de variantes no marxismo estabelecido e a unidade fundamental do liberalismo, estão em seus processos respectivos de constituição e nos condutos institucionais para sua existência continuada. Enquanto o liberalismo não tem uma paternidade aferida, sendo mais bem o resultado de um lento processo de sedimentação de idéias e de concepções sobre o mundo por parte de diversas correntes de pensamento – tanto na filosofia, propriamente dita, como no mundo do direito, da economia, da ciência política e das humanidades em geral –, o marxismo, sim, traz as marcas próprias de seu criador, com todas as virtudes e defeitos de uma invenção feita para cumprir propósitos políticos determinados: a revolução social e a transformação do mundo pelos “engenheiros sociais” encarregados de criar o “homem novo” e a sociedade comunista. Era inevitável que os fracassos acumulados na realização das profecias (equivocadas) do demiurgo se traduzissem na proliferação de seitas e correntes ao longo do tempo.

O marxismo foi, de certa forma, mais bem sucedido do que o liberalismo durante grande parte do século XX, não apenas no terreno das idéias, mas também no da conquista de Estados e na construção de “sociedades socialistas”. No auge de sua primazia ideológica e material, ele dominava praticamente dois terços das “terras emersas” e boa parte da humanidade, capitaneado politicamente por dois gigantes da Eurásia – a União Soviética e a China comunista – e se sobressaía nos establishments acadêmicos de muitos países do Ocidente. Seu fracasso foi tão rotundo quanto sua ascensão, tendo ele implodido materialmente um pouco em todas as partes (tudo o que restou foram dois inexpressivos enclaves nas antípodas do capitalismo global).

Ainda assim, ele continua a dominar o cérebro de muitos acadêmicos ao redor do mundo e se compreende por quê. As propostas do marxismo são inegavelmente sedutoras: fala-se da superação da miséria, da injustiça, da exploração no mundo, a redistribuição de riquezas e a garantia de empregos e de habitação para toda a sociedade, idéias que atraem número significativo de jovens e outros idealistas. O liberalismo, por sua vez, fundamenta-se no esforço individual, no trabalho duro para a acumulação de riquezas, na competição contínua entre os agentes econômicos como condição de sua sobrevivência no mercado e de seu sucesso futuro, com algumas sequelas normalmente associadas a esses processos: monopólios de fato em produtos inovadores, ganhos extraordinários para os bem sucedidos, algumas desigualdades distributivas e aparente injustiça na exibição de “riqueza excessiva”, ou seja, nada que seja moralmente atraente ou socialmente “justificável”.

E, no entanto, um rápido exame nos indicadores econômicos de todos os países, ao longo do último século, e uma simples verificação “visual” sobre como vivem as pessoas em todos esses países, confirmam que os países mais prósperos e mais igualitários são também os mais liberais e os menos impregnados de socialismo marxista. Não deixa de surpreender, assim, a contínua adesão de acadêmicos ao marxismo, quando este tem tão poucos resultados positivos a demonstrar e tantos fracassos acumulados, entre os quais os mais graves são, seguramente, as terríveis experiências ditatoriais e os campos de concentração existentes nos países que foram levados ao comunismo.

O marxismo desfruta de muita publicidade indevida, enquanto o liberalismo quase não tem quem lhe defenda seus ideais e princípios, inclusive porque, conforme seus próprios fundamentos, ele é uma doutrina associada aos direitos individuais e ao exercício do individualismo no plano econômico e da máxima liberdade pessoal no terreno da política. Não é de seu feitio mobilizar massas, movimentos, associações, menos ainda manipular vontades individuais. A persuasão sobre suas vantagens evidentes é bem mais difícil do que a demagogia sobre o futuro radioso prometido pelo marxismo. Em última instância, o liberalismo é vencedor, mas o caminho é mais lento e tortuoso do que as explicações simplistas, mas equivocadas, do marxismo.

O exercício do livre arbítrio e a valorização do mérito individual nem sempre são tão disseminados na sociedade quanto se poderia esperar

Serra no Brasil Urgente.