sexta-feira, 23 de abril de 2010

RESENHA: A LÓGICA DO CISNE NEGRO.

Tiver que ler esse livro e estou postando a resenha que precisei fazer.

Antes da descoberta da Austrália, a verdade era de que havia apenas cisnes de cor branca. Cisnes negros eram impensáveis, simplesmente por que nunca haviam sidos vistos até então, ou seja, o mundo acreditava que a não possibilidade de provar algo implicava simultaneamente a sua inexistência.
O autor usa essa história como uma analogia para identificar outros cisnes negros no mundo. Há diversos eventos no mundo que podem ser descritos como cisnes negros. O Google, os atentados das torres gêmeas em 2001, o Youtube, o crack de 1929, a crise do subprime, a Grécia campeã da Euro 2004 e queda das bolsas em 1987 são exemplos de cisnes negros, isto é, eventos tidos, a priori, como altamente improváveis, mas depois que aconteceram, mudaram totalmente a compreensão das pessoas sobre o mundo.
Basicamente, com a historinha do cisne negro, o objetivo do livro é chamar a atenção para fato de que os eventos tidos como altamente improváveis são na verdade muito mais prováveis e que, quando acontecem, causam forte impacto. Usando isso como um axioma, Taleb parte para o ataque contra a sabedoria convencional que não se previne contra a possibilidade de algo que parece ser muito improvável. Crítica desde pessoas que não acreditam na existência de ETs porque ainda não viram um, até a famosa curva de Gauss, a curva de distribuição de probabilidades normal.
A arrogância do autor é irritante. Ele usa exemplos dos mais idiotas para corroborar com a sua teoria. Vemos no livro desde uma autora que teve em seu livro um sucesso absurdo mesmo depois que muitas editoras se recusaram em publicar a obra até a crise de 2008. Taleb critica duramente aqueles que acreditam que podemos usar o passado para modelar as probabilidades de eventos. É imbecil o financista que usa modelos de probabilidade para modelar o risco e tomar decisões a partir de seus resultados, é também imbecil o garoto que não acredita que um gato não possa latir, somente porque nunca viu um que fizesse isso antes.
Há diversos problemas com a análise feita no livro. O autor parece desconhecer a lei dos grandes números, que diz que a proporção de um evento tende para seu valor esperado quando a amostra aumenta infinitamente. Por exemplo, ao jogar um dado honesto, a proporção esperada de que o número 6 caia virado para cima é de 1/6, mas se jogarmos o mesmo dado cinco vezes e em todas estas o número 6 aparecer para cima, não podemos dizer que o evento cinco vezes o seis virado para cima é um cine negro. Por quê? Simples, a própria definição de probabilidade prevê isso. A probabilidade de que obtenhamos em cinco jogadas, cinco vezes o seis virado para cima é de 0, 0128560082%, pela lei dos grandes números isso indica que se jogarmos 100.000.000 o jogo “jogue o dado cinco vezes”, o número esperado do evento cinco vezes o seis virado para cima será 12.860. Então se você jogar o mesmo jogo em questão, não ache que o evento cinco vezes o seis virado para cima é um cisne negro só porque você o conseguir logo na primeira tentativa, tente no mínimo 1.000.000 de vezes antes de afirmar isso.
O exemplo do dado é interessante porque possui duas características extremamente interessantes:
• Aleatoriedade: é impossível saber, a priori, qual é o resultado antes de que ele aconteça;
• Independência dos eventos: o acontecimento de um evento não altera a probabilidade de que o mesmo evento aconteça posteriormente, no caso do dado, se o seis aparecer em uma jogada, a probabilidade de que o seis apareça novamente na próxima jogada continua a ser 1/6.
O autor parece não saber que todos os modelos de distribuição de probabilidade só são totalmente válidos se essas duas propriedades se verificarem. É verdade que mesmo quando na quebra dessas propriedades podemos ainda obter resultados consistentes, mas para se só será possível em duas situações:
• Quando a não aleatoriedade e a não independência são fracas demais para causar sérios problemas.
• Quando conhecemos a natureza da perturbação e podemos assim modelar e incorporar a fonte de erro à distribuição, construindo um modelo de probabilidade condicional.
Vejamos como os exemplos do autor se saem quanto às propriedades acima. Abalos econômicos certamente não são aleatórios e nem independentes, um pouco antes do estouro da bolha em outubro de 2007, todo mundo já sabia o que isso iria acontecer (se você está se perguntando por que então ninguém impediu, a resposta é simples, economia é complexa demais e estamos longe de saber reverter situações como aquela a tempo), a independência também não se verifica no caso, as crise econômicas do passado com certeza nos ensinaram muito, e ajudaram a modificar a probabilidade de que o evento acontecesse.
Um atentado terrorista no nível do que ocorreu em 2001 é um evento aleatório, não da para saber, a priori, se vai ou não acontecer. A independência com certeza não se verifica para esse evento, já que é claro que o acontecimento muda a probabilidade de que o evento aconteça no futuro, pois mais segurança será deslocada para evitar o evento.
Há ainda outros problemas nos exemplos do autor. O crack da bolsa em 1987 era totalmente inesperado, baseado nos modelos de probabilidade a partir dos resultados diários da bolsa, a probabilidade de que a bolsa caísse tanto quanto caiu era menor do que a probabilidade de você jogar para cima um monte de areia e pegar exatamente o grão de que você queria, ou seja, praticamente impossível. Além de se preocupar com as propriedades citadas acima, podemos verificar outro problema, não é, mas podemos vê-lo como um problema de amostragem que prejudica a validade externa do modelo. Você não pode construir um modelo estatístico para o consumo no Brasil e esperar que o modelo seja bom para prever o consumo na Nova Guiné, ou seja, você não pode assumir que todo o modelo tenha uma válida externa. O principio é o mesmo para o crack de 1987, as decisões de investimento se diferenciam entre aquelas tomadas com base na conjuntura econômica e aquelas tomadas com base somente em modelos estatísticos, ou seja, uma pessoa pode investir em uma empresa sem nem conhecer o ramo de atuação, se baseando apenas no que o modelo prevê. Taleb se esquece de que a previsão se baseia na amostra, e nessa não havia dados sobre uma queda tão grande anteriormente. Enfim, é errado cobrar de um modelo que ele preveja corretamente um evento para o qual ele não foi alimentado anteriormente, ou seja, cobrar a válida externa dele. Um exemplo simples disso ocorre com modelos de previsão de consumo com base na renda, se você tem na sua amostra apenas rendas que vão de 10.000 até 25.000 reais, você não pode cobrar que seu modelo preveja bem o consumo de uma pessoa com renda de 5.000.000 de reais. Sendo assim, o fato de que a bolsa teve um crack totalmente inesperado em 1987, não significa, nesse caso, que isso é um cisne negro.
Se você está se perguntando se eu não estou dizendo a mesma coisa que o Taleb disse, que há problemas nos modelos de previsão, você está parcialmente certo. A diferença está no que eu acho ser o principal problema do livro, ele sugere que joguemos fora nossos modelos e passemos a tomar decisões com base no inesperado. Estatisticamente, deveríamos pressupor que os eventos extremos são mais prováveis do que são e incorporar isso em nossas decisões de investimento, de segurança nacional, de resultados esportivos, composição de portfólios, os editores deveriam publicar todos os livros e por ai vai. O autor não leva em consideração que o modelos estatísticos, mesmo com seus problemas, são o melhor que podemos fazer, isso significa que não importa que não estejamos certos em todas as vezes, importa que na média estejamos certos e que o resultado médio seja favorável. Imagine que sigamos o conselho do autor, todas as vezes que formos investir, devemos investir nos projetos que parecem inúteis, não devemos viajar mais de avião, pode haver um terrorista mal intencionado na tripulação. A ineficiência de agir se precavendo dos cisnes negros traz, com certeza, um custo maior do que seria se nos preocuparmos com o que conhecemos e nos sujeitar, eventualmente, a eventos inesperados.
Basicamente, o autor está criticando a sabedoria convencional por não ter iniciativa de fazer coisas como: construir um sistema de defesa contra uma invasão alienígena; ordenar que todas as casas sejam mais fortes que um tanque de guerra, pois se um avião cair na sua casa, você não vai morrer; ordenar que todo mundo ande com um sistema de para-raio, se você for atingido por um raio, não vai morrer; ordenar que todo mundo compre uma vestimenta de guerra, pois assim você não morrerá por uma bala perdida. Se seguíssemos o conselho de Taleb, teríamos de fazer muitas outras coisas idiotas.

10 comentários:

  1. ninguém vai ler este testamento.....

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    1. quem nao consegue ler esse pequeno trecho de palavras, quem dirá um livro inteiro. deixa de preguiça e invista no teu cérebro.

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  2. Eu li sim, obrigada por ter postado.

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  3. Visão bacana, porém extremista.

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  4. Por isso eu nao li o livro, chato, tanto quanto a esse resumo, queria uma parada mais simples e prática. Mesmo assim, obrigada

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  5. Flávio,entendo sua colocação, porém, a verdade axiomática, incontestável, rs,rs,rs, é que o livro fala de escolhas, de incertezas...é Filosofia. Leia novamente, dessa vez, com olhar filosófico. Abraços.

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    1. Oi, achei legal sua colocação. Poderia desenvolve-la melhor, por favor?

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